terça-feira, 22 de março de 2011

ALTERNATIVOS, ALTERNATIVAS

Reno Viana *
Hoje terminei de ler pela segunda vez o mais impressionante livro que tive em mãos nos últimos tempos. Trata-se de um admirável ensaio escrito pelo jornalista e sociólogo Perseu Abramo, intitulado Padrões de Manipulação na Grande Imprensa.
Tive a honra de receber este livro da juíza Kenarik Felippe, fundadora e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia, tempos depois de uma conversa nossa em São Paulo, quando comentamos a longa entrevista que ela concedera em 2009 à revista Caros Amigos.Sempre gostei de ler essa revista. Não apenas pelo conteúdo muito bom, mas também porque a publicação lembra a imprensa alternativa dos tempos da ditadura militar.
Nasci em uma família que sempre gostou de ler jornais. Meu pai, por exemplo, durante cinquenta anos foi leitor assíduo do jornal A Tarde, tido como o principal da Bahia. Durante a ditadura, lá em nossa casa também se lia tabloides alternativos de oposição ao regime militar então vigente. A presença desses tabloides era, certamente, influência do advogado Elquisson Soares.
Lançado pela esquerda de Vitória da Conquista e apoiado pelo célebre Francisco Pinto, de Feira de Santana, durante a ditadura Elquisson seria eleito e reeleito Deputado Federal pela Bahia. No Congresso Nacional, ele e Chico Pinto fariam parte de um agrupamento chamado “Tendência Popular”, corrente política que atuava dentro do MDB e que era umbilicalmente ligada ao jornal Movimento, uma dos principais veículos nacionais da imprensa alternativa daquela época. A “Tendência Popular” chegava a fazer parte do próprio conselho de redação do tabloide.
Muitos anos depois, em Vitória da Conquista, lembro que certo dia recebi um telefonema de Elquisson, dizendo que queria me apresentar a um amigo. Nesse dia eu conheceria pessoalmente Raimundo Rodrigues Pereira.
Expulso do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) pelo golpe militar de 1964, Raimundo concluiria seus estudos na Universidade de São Paulo e se tornaria jornalista. Embora tenha sido um dos principais pioneiros da revista Veja, logo deixaria a grande imprensa e se tornaria editor de tabloides alternativos, como o conceituado Opinião e, depois, o já mencionado Movimento.
Para mim foi um grande privilégio ter tido a oportunidade de conhecê-lo e com ele poder conversar longamente. A influência dele, sem dúvida, é um dos motivos que me levaram a ser hoje um “blogueiro” e a escrever textos como este que agora está sendo lido.
Foi através de Raimundo Rodrigues Pereira que tomei conhecimento de detalhes da trajetória do jornalista Perseu Abramo, inclusive em relação à passagem deste pela Folha de São Paulo e pelo próprio jornal Movimento. Percebi então que Abramo era também o sociólogo autor de alguns textos que eu tinha lido na faculdade, como o trabalho intitulado “Pesquisa em Ciências Sociais: Um Guia para Estudantes”, lançado há muitos anos pela Universidade Federal da Bahia, onde ele lecionara.
Dessa forma,quando a juíza Kenarik Felippe me falou do livro Padrões de Manipulação na Grande Imprensa, pensei que já sabia mais ou menos do que se tratava.
Mas, no entanto, eu estava enganado. O livro me surpreendeu.
Extremamente bem escrito, o texto analisa em profundidade a maneira como a grande mídia se torna um instrumento de controle político. Buscando em sua atividade não o lucro econômico, cuja obtenção poderia ser mais fácil em outras atividades empresariais, segundo o autor os grandes veículos de comunicação atuariam motivados pela lógica do poder.
Essa ideia, em si mesma, não é nova. Qualquer pessoa minimamente bem informada tem pelo menos uma intuição dessa realidade. O que é formidável é a análise minuciosa que Perseu Abramo faz das técnicas que, aplicadas rotineiramente, levam àquele resultado, criando o que qualifica de “realidade artificial, não real, irreal, apresentada no lugar da realidade real”.
O livro é tão prodigioso, que vou fazer como a juíza Kenarik Felippe. Vou comprar alguns exemplares para as pessoas que conheço e que se interessam pelo tema. Uma dessas pessoas seria Elquisson Soares, que hoje vive quase recluso em sua fazenda na Barra do Choça, próximo a Vitória da Conquista.  Acho que ele também vai gostar.

*Reno Viana é Juiz de Direito na Bahia e membro da Associação Juízes para a Democracia.


Kenarik Felippe na Caros Amigos


O jornal de Raimundo
 
O livro de Abramo



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