sexta-feira, 7 de outubro de 2011

" A MELHOR MANEIRA DE FALAR SOBRE A REALIDADE É VIVENDO-A !!! "

Relato sobre ocupação de terra
MTD – Movimento dos Trabalhadores Desempregados

Laysa de Gouveia*

Certamente as pessoas que passavam pela BR naquela madrugada, não entendiam nada do que estava acontecendo. A luta popular se encontrava ali, travando mais uma batalha, rumo à vitória.

Tudo se inicia às 10 horas da noite de sábado, 2 de outubro, quando saio de casa em destino ao assentamento Zumbi dos Palmares, tendo firme na cabeça que naquela noite iria vivenciar uma grande experiência em minha vida, tendo a oportunidade de colocar em prática algumas de minhas teorias pregadas sobre “a luta popular”. Chegando ao destino conheço pessoas simpáticas, com quem logo me envolvo com conversas e risos. Negão (um dos assentados) nos dá alguns informes de como será a noite e então esperamos o cair da madrugada entre partidas de dominó.

Chega a madrugada, e junto com ela o frio, de aproximadamente 16º. Caminhamos todos em direção ao Acampamento Santos Dias para nos juntar aos outros companheiros de luta. Para clarear a mente dos leitores: O termo “assentamento” se dá quando há emissão de posse e as famílias passam a ter seus lotes. Já o termo “acampamento” designa a fase em que as famílias se encontram ainda na beira da pista, em seus barracos, aguardando a desapropriação das terras.

Tudo pronto, partimos BR adentro rumo à “terra prometida”. Vale ressaltar o quão lindo estava o céu naquela noite, totalmente coberto pelas estrelas. As pessoas que ali estavam traziam consigo muitas histórias, que eu ouvia conforme andava entre elas. Histórias como a de uma senhora, que a 7 anos se encontra acampada na cidade de Simões Filho, e veio de lá juntamente com outros companheiros para ajudar-nos no processo inicial daqui. Relatos de batalhas, fé e esperança de que aquela terra seja finalmente sua por direito. Todos os presentes traziam ali força de vontade, dedicação e disposição sem igual, pois afinal, na luta do povo ninguém se cansa.

No caminho era solicitado silêncio, em prol do sigilo, mas os jovens não davam sossego. Terra à vista! O momento do corte da cerca chegou a me emocionar; ainda custava a acreditar que estava tendo a oportunidade de estar ali, em um momento tão importante quanto este. Terra a dentro, desbravamos entre o desconhecido para o reconhecimento do local. Tarefas foram divididas e o levante dos barracos começou a ser realizado. Vinha a minha cabeça muitas vezes a marginalização da mulher quando usado o termo “sexo frágil”. Ali todos eram guerreiros, fortes, de luta, em completa sintonia e igualdade. Homens e mulheres misturavam-se nas tarefas entre preparo do almoço e levante do barracão principal. Eu particularmente passei a manhã toda catando feijões e interagindo com os companheiros, no intuito de conhecer as suas mais variadas realidades.

Onde está o povo brasileiro, tem sorriso no rosto. Animação também não faltava em nenhum segundo naquele lugar. Em alguns momentos montava-se uma banda improvisada, com direito a coral de criancinhas. Assim que a sanfona tocava, os sorrisos e danças espalhavam-se sobre o acampamento, das mais variadas formas. “Vocês são sem terra, mas não são sem esperança, sem coragem, sem fervor revolucionário (...)” – Frei Betto.

Entre tantos pensamentos que me “perturbavam” sobre todo aquele dia, imaginava o que seria daquelas pessoas se não estivessem ali, qual seria a realidade reservada para eles. Estariam com certeza sujeitos a trabalhos quase em condições escravas e de baixo salário, dependendo dele para pagar aluguel e sustentar toda uma família, enquanto aquela terra estaria sendo inutilizada, desperdiçada. As crianças, que passaram o dia em completa diversão, correndo entre os espaços, talvez estivessem entregues ao tráfico, à marginalização. Entre todas as indagações que fazia a mim mesma em pensamento, entendia por que eles estavam ali, porque aquelas terras pertencem a eles e os direitos que tem sobre elas.

Talvez a parte mais difícil do dia tenha sido a ida ao “banheiro” que de fato não existia. As mãos que permaneceram sujas por conta do trabalho me traziam um orgulho profundo. Medo só me bateu em um momento, quando foi encontrada uma cobra. Medo pela vida dos meus companheiros. Imaginava se não apareceriam ali outros animais peçonhentos que os atacassem antes de serem vistos. A grande cobra venenosa não saiu dos meus pensamentos até agora.  O almoço realizado num fogão rústico feito ali mesmo com a casa dos cupins estava verdadeiramente delicioso, organizados em filas esperávamos a serventia nos pratos, que depois foram lavados com a água de um cano estourado frente à pista, e foi nesse ritual de almoço familiar que me despedi dos companheiros até o próximo encontro. Em momento algum eu desejei estar em qualquer outro lugar se não ali.

Após aquele dia de convívio, no caminho para casa me vinha às relatorias do senso comum, dotadas de preconceitos sobre as ocupações realizadas pelos sem terra. E digo OCUPAÇÕES e não INVASÕES, como são relatadas na grande mídia. Quantas dessas pessoas passaram pelo menos um dia sequer ao lado deles? Quantos tiveram o mínimo desejo de conhecimento de suas realidades antes de sair formulando idéias dotadas de falsidades? Quantos pegaram nas enxadas, capinaram os campos, cortaram as madeiras, amarraram as lonas? É realmente necessário que todos reavaliem o que andam lendo por aí, reproduzindo principalmente o que parte de uma burguesia que pouco se preocupa com as lutas populares e só fomentam o desejo exacerbado pelo lucro, através da exploração dessas pessoas. Se a grande riqueza brasileira fosse dividida de forma igual, terras não precisariam ser ocupadas, pessoas não precisariam viver em baixo de lonas pretas, sujeitas a chuva, ao frio, insetos, em condições miseráveis. E ainda reproduzem por aí que os ocupadores são os vilões... Há séculos a burguesia está invadindo o nosso direito a vida, nos deixando não só sem teto, mas sem alimento, segurança, educação, trabalho, saúde, enfim... Sem vida digna.


*Laysa de Gouveia é estudante do II Semestre de Comunicação Social da UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.



Um comentário:

  1. É tão fácil,termos uma opinião formada atraves do que a grande mídia apresenta.Mais a realidade é que não podemos formar uma opinião sem ao menos conhecer de perto o assunto, eu parabenizo Laysa, por esse trabalho de campo, onde ela viveu pelo menos por um dia, o que esse trabalhadores passam, Invasões ou ocupações, como queiram chamar. O que esses seres humanos precisam é de um teto, onde possam criar um habitat agradável, mas, a burguesia só está interessado em numeros, e essa minoria sempre são as mais lesadas. Por isso, digo que para haver harmonia, devemos pensar no nosso proximo, pois assim, perceberemos o quão fracos somos.

    Joabson Silva > Estudante do II Semestre de Comunicação Social-Jornalismo da UESB

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